10.10.17

Velhos




















importa que saibas
que tudo o que acontece
para além dos meus olhos
para dentro dos meus olhos
não se vê melhor
que na memória do teu perfume
em todas as tardes
de que me lembro
estendido ao teu lado
no chão que a terra oferece
rindo da chuva
celebrando o sol
importa que as palavras não rimem
para te deixarem em paz
e que sintas os meus beijos
dessedentando esta história
a nossa história
de frente como se olha o infinito
impresso nas perguntas
que são apenas respostas e mais respostas
caindo das nossas bocas
amaciando o que a vida conta
provocando os abraços das tardes
quando por fim o frio chega
e nos olhamos velhos
nos álbuns cheios da vida recolhida
sorrindo
cúmplices
do que apenas podemos dizer

sorrindo

15.5.16

Incomensurável




















há uma incomensurável
razão
para não te saber explicar
para me emocionar
para não te saber ESCREVER
no afloramento ténue à tua carne
na prova doce da tua língua
que me espera em casa
doce
e de te lembrar
percorre-me um tremor violento
assustador
na força que cresce em mim por te possuir
e dos teus olhos mais que azuis
infinitos
que me deixam pálido
de não te saber explicar

há uma história rude
que a minha pele não sabe suportar
como cada batida intensa
física
me exaurisse
e tu e eu
não entendêssemos que a sede tem fim
quando nos sorvemos
e tu és a minha água
o meu rio
e o oceano dos poemas não sabe nada
nem te sabe explicar
há muito mais que um desejo
há um barco à vela
há um saco de sal derramado
e os nossos corpos esquecidos no chão
molhado
de um cais antigo
onde ouvimos a CANÇÃO quente
noturna
e trauteamos um lálálá
no ritmo das artérias vermelhas
das mãos unas
dos nossos desejos
e dos olhos

que não sabem olhar para trás.

Dou por mim...



















dou por mim
de olhos abertos
murmurando teu nome
sussurrando
como um mantra
repetidamente sem resistir
aceito o quanto te quero
o quanto me fazes bem
como álcool ardendo nas feridas
abertas
dos teus dentes cravados nos meus lábios
dou por mim
na volta dos dezasseis anos
abraçado nos cinquenta e tantos
dou por mim
a queimar os passos nos círculos da espera
enquanto a sede chega
e o futuro passa de perto
dou por mim
sem saber se quer quem és
quando entras na minha casa
e saqueias o sangue
deste coração gasto batendo incessante
na tua procura